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domingo, 23 de setembro de 2012

Vida real

Quando não estamos expostos a uma situação, sempre temos uma opinião sobre como agiríamos se estivessemos nela.
Antes do João Victor nascer, eu divagava sobre várias situações e estabelecia como iria me portar ao chegar em cada fase.
Olhando para trás, vejo que a vida me pregou algumas peças e chego a me divertir confrotando o que planejei, com o que de fato aconteceu aqui em casa.

Exemplos: 
Plano: Amamentar até os seis meses de vida do João Victor, exclusivamente.
O que de fato aconteceu: Com o retorno ao trabalho, logo na primeira semana meu leite reduziu bastante. Comprei uma parafernália de equipamentos, bomba, potes para armazenar leite, bolsa térmica... mas inicialmente, o leite reduziu durante o dia e eu levava o dia inteiro 'enchendo' o peito para poder amamentar a noite. Resumo: Amamentei apenas os cinco meses iniciais e sinto falta deste momento até hoje.

Plano: Retornar ao trabalho e quando chegar em casa, dar banho, a janta e colocar para dormir todos os dias.
O que de fato aconteceu: Sucesso parcial. Funcionou até o João Victor ingressar na escola, mas agora ele chega tão cansado, que mal dá tempo da vovó dar banho e janta, que ele já capota em sono e vai até o dia seguinte. Fico péssima quando chego do trabalho e não o vejo acordado. É como se meu dia não tivesse existido e pior, acontece com frequência.

Plano: Não oferecer nenhum alimento adoçado artificialmente.
O que de fato aconteceu: Plano seguido até o João Victor ingressar na escola com 1 ano e 10 meses e conhecer o vovô da escola que dá balinha a todas as crianças na saída. Depois disso, conheceu chocolate, pirulito, balas e eu morro cada vez que ele me pede estas coisas. Controlo ao máximo o consumo e só libero em situações muito especiais.

Plano: Não oferecer e nem permitir consumo de refrigerante.
O que de fato aconteceu: Sucesso absoluto e se alguém oferece, João Victor não toma, se é enganado, cospe na hora - e eu morro de orgulho! heheheh

Plano: Ele só assistiria programas educativos e músicas bem escolhidas.
O que de fato aconteceu: AMA Discovery Kids e me surta ao pedir inúmeras tranqueiras que aparecem nos comerciais, #ódio! Também não gosta de palavra cantada, mpb kids e outros, mas canta OI OI OI, Ai se eu te pego, quero tchu, tchá.... e eu oscilo entre rir e me desesperar. E ainda requebra com funk #morro2!

Plano: Alimentação bem natural, equilibrada e diversificada.
O que de fato aconteceu: Sucesso parcial. Funcionou até o momento das papinhas, mas ao migrarmos para a comida mais sólida, caos total e agora é daqueles que grita: batatinha frita, batatinha frita, batatinha frita, a cada vez que entramos em um shopping. Também é louco por sorvete e continua a amar frutas.

Plano: Me chamaria de mamae até 49 anos.
O que de fato aconteceu: Fui mamãe até mais ou menos 2 anos e agora só me chama assim para me adoçar. Na maioria das vezes é manhê, e por vezes solta um "ô garota", que tenho que me segurar pra não rir e não dar confiança...

Enfim, quando a vida acontece na sua cara, ela se mostra diferente de todas as subjetivações que construímos, e nem por isso ela perde a beleza e a autenticidade.
Fui viver e depois volto.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

A escola e seu papel da sociedade


Venho de uma família pequena. Sou filha única, meu pai era filho único, minha mãe é a caçula de cinco irmãos. Não tenho primos com idade próxima a minha e meu espaço social sempre foi ligado a escola, cursos e atividades esportivas que fui inserida deste cedo.

Minha mãe sempre foi uma profissional brilhante e desde os anos 80, dedicou-se a carreira e a família. Meu pai, sempre atuou no setor privado e a rotina deles sempre foi de intensas horas de trabalho, (com horas extras) e finais de semana em família.

Minha rotina não é diferente e sempre soube que colocaria meu filho no colégio após seus dois anos.
João Victor nasceu e por não ter outras crianças no nosso convívio diário, resolvi buscar um colégio com a estrutura e projeto pedagógico similar ao que eu julgava importante.

A busca durou pouco tempo pois eu queria que ele estudasse no mesmo local onde eu mesma, anos antes, fiz o maternal.
O período de adaptação foi bem melhor do que imaginava mas incluiu todo xororô vivenciado pela maioria das mães. Crises na entrada (ou do filho ou da mãe), medos, inseguranças e todo espanto que o 'novo' proporciona.

O fato é que nestes sete meses de escola, João Victor se desenvolveu muito. Hoje ele possui um vocabulário mais elaborado, é capaz de relatar acontecimentos, contar pequenas histórias, conhece as cores, formas geométricas, canta, constrói as primeiras amizades e estabelece afinidades e relações.

Tudo muito bacana, se não fosse as vezes (e já conto umas 5) que ele chega machucado em casa.
Um dos canais de comunicação utilizados pela escola é a agenda do aluno, onde os professores relatam acontecimentos importantes no dia a dia do aluno.

A redação destes bilhetes vem me incomodando bastante pois via de regra, sempre vem mencionando que "o João Victor tirou a massinha da mão do amiguinho e ele não gostou e arranhou/mordeu/chutou/ bateu nele".
O discurso sempre dá conta que meu filho sofreu uma agressão mas que esta é justificada por algum comportamento dele.

Desde ontem (data do último episódio/ bilhetinho) isso vem martelando na minha cabeça.
Temos discursos tão bacanas, dizemos que queremos criar nossos filhos em uma cultura de não-violência, temos o cuidado de não reproduzir falas/ condutas sexistas e quando vejo, a escola, espaço onde meu filho fica 4 horas diariamente, ensina que a VIOLÊNCIA É JUSTIFICADA POR ALGUMA CONDUTA ERRADA DE QUEM A RECEBE, OU SEJA, VOCÊ APANHOU/ FOI MORDIDO/ ARRANHADO POR QUE VOCÊ FEZ POR MERECER, AFINAL, TIROU A MASSINHA DA MÃO DO COLEGUINHA!

E esta não é a conduta que predomina da nossa sociedade? Conduta que culpabiliza a vítima, sempre justificando o ato do agressor?
A mulher é violentada porque estava de saia curta ou roupa muito decotada.
A criança é abusada sexualmente porque seduziu o pobre homem, porque ela 'pediu', 'queria', 'gosta'.
A esposa apanhou porque respondeu o marido.

E onde se perpetua este 'modus operandi'? Nas casas, nas escolas, em todos os espaços que não se propõe a refletir sobre as formas pedagógicas e mensagens subliminares que passamos, mesmo sem querer, as nossas crianças.

Como enfrentar uma situação destas sem virar para o próprio filho e dizer, se o coleguinha bater, bata nele também.
O ideal, seria orientar que a criança buscasse ajuda ou intervenção de um adulto, no caso, a professora. Tenho optado por esta medida mas encontrar estes bilhetes, esta narrativa, me faz pensar no papel das escolas e dos profissionais que estão atuando com nossas crianças.

Combativa e militante como sou, já envolvi a direção da escola e outras mães nesta discussão. Não posso simplismente tirar meu filho do colégio pois isso talvez resolva o meu problema mas não contribui em nada no enfrentamento da questão.

Torna-se urgente repensar a escola e o perfil do profissional que nela atua. Este é um espaço importante de socialização e não se pretende (ou ao menos não deveria) ser delegado a ela a total educação das crianças.

Na escola desenvolve-se conceitos e estimula-se o conhecimento. Seu objetivo não é  reproduzir o aprendizado mas tornar possível o pensamento crítico, emancipando através do conhecimento, proporcionando que os novos cidadãos repensem uma sociedade mais justa, com mais respeito a dignidade, diversidade e amor.

Utopia? Não... eu acredito nisso!

Imagem: http://educainfantilotc.blogspot.com.br/



terça-feira, 11 de setembro de 2012

Heranças de uma vida


Hoje li um texto lindo publicado em um blog que leio diariamente.
Ele me fez refletir no tanto que aprendemos com as pessoas queridas (e as nem tanto) que passam pela nossa vida.
Este assunto sempre me ronda e me delicio em pensar no tanto que acumulamos e no tanto que percebo em mim, jeitos, práticas, falas dos meus pais, avós, amigos e familiares...

Reconheço estas heranças deixadas e penso no que deixarei ao João Victor. O que ficará nele da minha essência? O que ficará registrado e que será sua herança a cada vez que lembrar de mim???

Quando penso no meu pai, penso no jeito sarcástico e  debochado dele. Ainda vejo-o com prazer a frente da churrasqueira, vindo da feira alegre em trazer minhas frutas preferidas. Vejo cerveja Brahma e lembro dele, vou a um bar descolado e penso se ele gostaria do lugar.
Da vó Iracema, trouxe a vaidade, a paixão pelo belo e pelas panelas, receitas, boa mesa.
Da minha doce mãe, o afinco pelo trabalho, pela independência e a devoção à maternidade.
Da minha amiga Wanne, a paixão pela moda, da Bia o amor pela decoração...
Da tia Vilma, os pensamentos de uma maternidade descolada, que respeita o desejo do filho e deixa-o leve para exercer suas escolhas.
Da minha querida comadre Flávia, a conjunção entre ser mulher e ser mãe, que se descobre e redescobre continuamente.
De outros tantos amigos, virtuais ou não, que diariamente me contagiam, me ensinam, perfumam a minha vida e muitas vezes não se dão conta.

à todos eles, dedico este texto:

O QUE FICA
Sábado de manhã. Estamos nos arrumando pra sair, acabo de passar batom e ouço meu filho correr para a porta, dizendo: “Vão bora?” E a entonação é tão perfeita, que é como se eu ouvisse a mim mesma.
No almoço, ao servir o prato de uma amiga, percebo um quê da minha avó em mim. “Falta o componente”, eu me vejo dizer. Era seu jeito particular de avisar que o prato ainda não estava completo. E isso já é tão meu que sai sem pensar.
Passamos pelas pessoas. Pessoas passam por nós.
Da convivência com um ex-namorado de fina delicadeza, herdei o cuidado de chamar as pessoas de queridas. E é sempre com o carinho genuíno de quem quer que o outro se sinta mesmo benquisto.
Da minha mãe, herdei o barulho da risada e a mania de guardar o guardanapo amassado na mão fechada até o fim da festa. Do meu pai, ficou o gosto pelos detalhes e o pavor de vento nas costas.
Mas nem só de pessoas que se foram herdamos veludos na fala, palavras bem escolhidas, trejeitos que acabam passando para os que vêm depois de nós.
Os que não estão mais aqui ficaram. E há quem já tenha ficado sem nem mesmo ter ido.
Tive uma amiga que se foi, sim. Da minha vida, não do mundo. Mas deixou tanto dela em mim que às vezes sinto sua presença. E das minhas piadas rio com a sua inteligência. E adivinho as críticas que ela faria. Foi, mas ficou. Devo ter ficado nela também.
E assim nunca estamos sós.
Conto como meus alguns casos engraçados de uma família que não é minha, mas do meu ex-marido. E o relato tem o ritmo e a entonação dele, suas risadas pontuando o caso. São as lembranças boas que ficaram. Heranças.
De uma amiga que hoje mora longe, ficou o sabor do frango a passarinho e da caipirinha, cardápio semanal da nossa troca de confidências. O tempo e os fatos não abafaram o ruído típico das terças-feiras naquele tradicional restaurante português. No meio do barulho, nossas risadas.
Somos feitos de quem passa por nós. Vamos nos misturando em gostos, aprendizados, histórias. E assim somos um pouco mais o outro, sem deixar de ser cada um de nós.
E se o tempo é de interatividade sem fronteiras, somos até mesmo quem sequer conhecemos. Somos o que ouvimos, o que lemos, o que vimos. Somos o que nos toca. O que assusta ou preenche. Somos o oposto que choca. Somos o igual que conforta.
Sou a peça de teatro a que assisti duas vezes, o filme que me fez chorar, a viagem que não fiz, mas cujas fotos me impressionaram. Sou a biografia de alguém que já morreu. Sou o que quero ser.
Sou a empregada emburrada que me negava o suco antes do almoço. Sou a lágrima que me corria diante do prato de comida em frente ao suco. Sou o bacalhau disputado. O chefe que bocejava com som de filme de terror. Sou o porteiro que estava sempre de acordo. Sou musical, como o cartão que o amigo do meu avô enviava todo Natal. Sou o show do Prince, a camareira senegalesa do hotelzinho em Paris, o negro curaçaolenho que me indicou o caminho para a ponte.
Sou meu professor de redação publicitária e sua risada sarcástica que apavorava os alunos. Sou os olhos brilhando da avó de uma amiga – e sei fazer goiabada da roça. Sou os meninos carentes do Vale do Jequitinhonha: seca de abraço. Sou elétrica, mas mora em mim o olhar calmo do professor de ioga. E mora a faxineira tristonha, o velho de muletas, o cachorro magro na rua, a perua no alto do carro importado, a fumaça do ônibus, a guerra na favela. Sou o que fica impresso na retina. O que maltrata o coração. O que o bombeia de volta.
Sou muitas pessoas e de muitas delas nem sei os nomes. Sou lugares, momentos, cenas, sou o que não aconteceu. Sou frustrações e conquistas. Sou a falta de quem deixou de passar por mim. Sou o silêncio do que não li. A ignorância que pergunta. A criança que eu queria ter sido, a velha que quero ser.
Cada fato ou alguém que sou me diz um pouco mais de mim. E com tantas novidades sobre mim à minha volta, vivo surpresa. E meus olhos não perdem o viço.

Publicado na revista Encontro em 2011

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Primeiras vezes

Tenho adoração pelas 'primeiras vezes'.
Adoro a sensação de estar fazendo algo pela primeira vez. O friozinho na barriga, a sensação de insegurança, a surpresa, expectativa  e até o desapontamento pra mim, são especiais.

Tentei registrar a maioria das primeiras vezes do João Victor. O primeiro contato com a grama, a primeira ida à praia, o primeiro passeio no Zoo... enfim, o acesso ao novo, ao inexplorado ao mundo de texturas, cores e sensações que uma criança experiencia nos primeiros anos.

Isso me fascina. Tiro fotos, procuro captar a fisionomia, as falas, o cenário... tenho urgência em apreender estes momentos e de certa forma, eternizá-los.

O João Victor adora estes momentos e se joga neles! O bichinho não tem medo de nada e aproveita cada novidade.

Na semana passada viajamos para Aracajú e fora a estada maravilhosa e o lindo casamento que presenciamos, a primeira viagem de avião do João foi inesquecível.

Nosso voo estava marcado para 23 horas e eu achava que pelo horário, ele não iria aproveitar nada. Prestes a entrar no avião, ele acordou e ficou doido.
Ele olhava na janela e falava: "Olha mamãe, avião!" "Mamãe, tá voando, tá subindo..."
E ria, e chamava o pai, e repetia as frases completamente encantado.
Quando o avião alcançou certa altitude, a cidade era vista de cima e só se resumia a pequena e encantadoras luzinhas. João Victor fitava a paisagem fascinado e eu embevecida de ternura ao ver esta cena.

Tirei muitas fotos e espero jamais esquecer desta carinha sapeca.
Tudo vale a pena.....................................