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terça-feira, 18 de setembro de 2012

A escola e seu papel da sociedade


Venho de uma família pequena. Sou filha única, meu pai era filho único, minha mãe é a caçula de cinco irmãos. Não tenho primos com idade próxima a minha e meu espaço social sempre foi ligado a escola, cursos e atividades esportivas que fui inserida deste cedo.

Minha mãe sempre foi uma profissional brilhante e desde os anos 80, dedicou-se a carreira e a família. Meu pai, sempre atuou no setor privado e a rotina deles sempre foi de intensas horas de trabalho, (com horas extras) e finais de semana em família.

Minha rotina não é diferente e sempre soube que colocaria meu filho no colégio após seus dois anos.
João Victor nasceu e por não ter outras crianças no nosso convívio diário, resolvi buscar um colégio com a estrutura e projeto pedagógico similar ao que eu julgava importante.

A busca durou pouco tempo pois eu queria que ele estudasse no mesmo local onde eu mesma, anos antes, fiz o maternal.
O período de adaptação foi bem melhor do que imaginava mas incluiu todo xororô vivenciado pela maioria das mães. Crises na entrada (ou do filho ou da mãe), medos, inseguranças e todo espanto que o 'novo' proporciona.

O fato é que nestes sete meses de escola, João Victor se desenvolveu muito. Hoje ele possui um vocabulário mais elaborado, é capaz de relatar acontecimentos, contar pequenas histórias, conhece as cores, formas geométricas, canta, constrói as primeiras amizades e estabelece afinidades e relações.

Tudo muito bacana, se não fosse as vezes (e já conto umas 5) que ele chega machucado em casa.
Um dos canais de comunicação utilizados pela escola é a agenda do aluno, onde os professores relatam acontecimentos importantes no dia a dia do aluno.

A redação destes bilhetes vem me incomodando bastante pois via de regra, sempre vem mencionando que "o João Victor tirou a massinha da mão do amiguinho e ele não gostou e arranhou/mordeu/chutou/ bateu nele".
O discurso sempre dá conta que meu filho sofreu uma agressão mas que esta é justificada por algum comportamento dele.

Desde ontem (data do último episódio/ bilhetinho) isso vem martelando na minha cabeça.
Temos discursos tão bacanas, dizemos que queremos criar nossos filhos em uma cultura de não-violência, temos o cuidado de não reproduzir falas/ condutas sexistas e quando vejo, a escola, espaço onde meu filho fica 4 horas diariamente, ensina que a VIOLÊNCIA É JUSTIFICADA POR ALGUMA CONDUTA ERRADA DE QUEM A RECEBE, OU SEJA, VOCÊ APANHOU/ FOI MORDIDO/ ARRANHADO POR QUE VOCÊ FEZ POR MERECER, AFINAL, TIROU A MASSINHA DA MÃO DO COLEGUINHA!

E esta não é a conduta que predomina da nossa sociedade? Conduta que culpabiliza a vítima, sempre justificando o ato do agressor?
A mulher é violentada porque estava de saia curta ou roupa muito decotada.
A criança é abusada sexualmente porque seduziu o pobre homem, porque ela 'pediu', 'queria', 'gosta'.
A esposa apanhou porque respondeu o marido.

E onde se perpetua este 'modus operandi'? Nas casas, nas escolas, em todos os espaços que não se propõe a refletir sobre as formas pedagógicas e mensagens subliminares que passamos, mesmo sem querer, as nossas crianças.

Como enfrentar uma situação destas sem virar para o próprio filho e dizer, se o coleguinha bater, bata nele também.
O ideal, seria orientar que a criança buscasse ajuda ou intervenção de um adulto, no caso, a professora. Tenho optado por esta medida mas encontrar estes bilhetes, esta narrativa, me faz pensar no papel das escolas e dos profissionais que estão atuando com nossas crianças.

Combativa e militante como sou, já envolvi a direção da escola e outras mães nesta discussão. Não posso simplismente tirar meu filho do colégio pois isso talvez resolva o meu problema mas não contribui em nada no enfrentamento da questão.

Torna-se urgente repensar a escola e o perfil do profissional que nela atua. Este é um espaço importante de socialização e não se pretende (ou ao menos não deveria) ser delegado a ela a total educação das crianças.

Na escola desenvolve-se conceitos e estimula-se o conhecimento. Seu objetivo não é  reproduzir o aprendizado mas tornar possível o pensamento crítico, emancipando através do conhecimento, proporcionando que os novos cidadãos repensem uma sociedade mais justa, com mais respeito a dignidade, diversidade e amor.

Utopia? Não... eu acredito nisso!

Imagem: http://educainfantilotc.blogspot.com.br/



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